Eletricidade que vem dos ventos custa um terço do que custava em 2004

Apesar de ser considerada uma fonte de energia limpa e renovável, a geração de eletricidade hidrelétrica ainda enfrenta muitas críticas, relacionadas a impactos socioambientais. Muitos críticos apontam que a solução para a crescente demanda está no investimento em energias alternativas, como a eólica e a solar. Também renováveis, e sem a necessidade da devastação de grandes áreas, essas fontes parecem ser uma solução ecologicamente correta, mas serão eficientes?

Energia limpa, renovável e alternativa

Elbia Melo, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), explica que, quando se fala em fontes limpas de energia, não se trata apenas da energia solar ou eólica. “Elas são parte das fontes limpas, que incluem também a hidrelétrica, nuclear e de biomassa”, comenta. Apesar de produzir dejetos radioativos, a nuclear – que não é renovável – não emite gás carbônico (CO2) na atmosfera. As usinas de biomassa – que queimam bagaço de cana, por exemplo – também são consideradas limpas uma vez que emitem na atmosfera o CO2, que já havia sido absorvido pelas plantas.

As usinas de biomassa, eólicas e solares são consideradas fontes alternativas de energia por uma questão histórica. “O governo brasileiro investe em energia limpa e renovável há décadas, porém, só investia nas usinas hidrelétricas”, comenta. A partir dos anos 1990, o governo tem demonstrado um interesse cada vez maior nessas novas fontes, que passaram a ser conhecidas como alternativas. Além delas, ainda são consideradas fontes alternativas as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas que utilizam a força dos rios pra gerar eletricidade, porém, sem gerar reservatório de água.

Potencial crescente

Hoje, a energia eólica corresponde a 2% da total produzida no país. Elbia conta que a fonte experimentou dois momentos importantes no país, um em 2004 e outro em 2009. Na primeira fase, o Governo Federal subsidiou o desenvolvimento e implantação no país, visto que era muito cara. Em 2009, foi iniciada a segunda fase, com o chamado leilão da produção de energia eólica, em que empresas produtoras de energia elétrica compraram participação na produção. Os parques eólicos leiloados na ocasião só foram terminados em 2012.

“Depois do primeiro leilão, foram realizados outros, em 2010, 2011 e 2012. Em 2013 deverá ser realizado outro leilão”, comenta Elbia. A presidente explica que, com o desenvolvimento de novas tecnologias, o custo de produção foi caindo e hoje é comparável ao da produção hidrelétrica: “Quando a energia eólica foi implantada no país, ela custava R$ 300 para cada megawatt/hora produzido (medida utilizada no setor). Em 2009, custava R$ 180 megawatt/hora. No leilão de 2011, a energia eólica chegou a R$ 100 por megawatt/hora”, destaca. Para se ter uma ideia, as grandes hidrelétricas – principais fontes de energia do Brasil – produzem a um custo de R$ 90 por megawatt/hora.

Por conta do barateamento da energia eólica, especialistas preveem que ela poderá corresponder a até 9% da matriz energética brasileira em 2017. O professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Erik Rego é otimista em sua análise: “Com conhecimento internacional, podemos chegar a 30% da matriz energética brasileira baseada na energia eólica, nas próximas décadas”.

Na verdade, de acordo com dados recentes, o Brasil tem potencial para produzir 300 gigawatts de energia só com a força dos ventos. Para se ter uma ideia, a produção de energia atual – contando fontes térmicas, hidrelétricas e eólicas – é de 120 gigawatts. “O país tem potencial para triplicar sua produção só com energia eólica, mas isso não é recomendável”, destaca Elbia. A professora explica que, por se tratar de uma fonte que depende dos ventos – que nem sempre sopram – é arriscado torná-la a principal de um país. “O caminho é fazer um equilíbrio entre diferentes fontes energéticas”, defende.

Energia solar

A participação da energia solar no Brasil é tão pequena, que não chega a ser considerada nos dados oficiais. Mas Erik destaca que ela poderá ter um grande crescimento no futuro. Para o especialista, a energia solar poderá ser gerada de duas formas: a primeira em parques solares. A segunda é por meio de placas instaladas sobre casas e prédios, que poderá trazer descontos na eletricidade paga pelos consumidores. “A energia solar ainda não é viável, mas poderá ser nos próximos cinco anos, aposta”.

Os parques solares são grandes áreas recobertas por painéis que captam a energia do sol e a transformam em eletricidade. Essa energia é integrada à rede de produção do país. “Atualmente, existem dois parques no Brasil: um em Campinas (SP) e outro no interior do Ceará”, comenta Erik. Ainda muito cara – a energia solar custa R$ 300 por megawatt/hora – ela se mostra mais competitiva quando empregada em residências e no comércio.

Uma das iniciativas mais inovadoras é a geração de energia solar em casa, que será revertida na conta de luz. Erik explica que, nos próximos anos, as pessoas poderão colocar placas de energia solar em seus telhados, por exemplo, e a energia produzida, que não for consumida na casa, será distribuída para o sistema elétrico. “Essa distribuição será revertida em desconto na conta de luz. A pessoa não pagará pelo excedente produzido em sua casa”, comenta. Atualmente, a medida não é viável para habitações, uma vez que a tecnologia ainda é muito cara. “Ela pode ser aplicada no comércio em um primeiro momento. À medida que for barateando, poderá migrar para as residências”, destaca Erik.

O professor destaca que a produção de energia solar em casa tem também um impacto socioeconômico positivo. “Como a energia é produzida no próprio local que será consumida, isso dispensa a construção de linhas de transmissão”, comenta. Isso, além de diminuir o custo da construção dessas linhas, também evita que populações tenham de sair das casas por onde as torres de alta tensão passariam.